caminhou pelo centro mochila nas costas

uma garrafa de água um livro com um dos dedos

como marcador

praticamente imperceptível

sentou na cabine puxou conversa obteve silêncio

saiu para comer olhar livros

voltou a cabine e nada

um endereço de trabalho sem encontrar

um fim da tarde quaquer

em que desistiu dos coletivos e das pernas

Às vezes não sei, quando este homem está só – fechado no escuro de um quarto, estendido numa cama, homem sozinho no mundo – eu quase não sei se não sou, ao invés de seu escritor, ele mesmo.

Mas, se escrevo sobre ele, não é por ele; é por alguma coisa que compreendi e devo dar a conhecer: e eu a compreendi; eu a tenho; e eu, não ele, falo sobre ela.

Agora sei que ele quer a sua infância. Quem pode dá-la senão eu? É a minha. Existe também a dela que ele quer consigo. E quem pode dá-la? Também ela é minha.

Mas ele já está na sua infância. Está com dez anos, com os olhos arregalados no escuro: um menino.

“E Berta?”, pergunto-lhe.

Berta tinha treze anos. Estava no colégio.

“Devemos ir a escola dela?”

Uma companheira sua, do colégio, morreu; ela aos treze anos apostou que pode velar por toda noite a companheira morta. Entramos num pequeno pátio.

“Ali está”, eu disse a ele aos dez anos. Existem três arcos, no arco do meio tem uma porta baixa, e vem de lá a luz dos mortos. “Agora”, digo-lhe, “não precisa mais assustá-la”.

Sentada aos pés do caixão aberto, Berta traz o medo nos dentes. Nós sempre soubemos; ela contou.

Mas tinha apostado, não queria voltar atrás, e ele sempre pensou no que tinha querido saber quando era menino: teria corrido até casa dela para fazer-lhe companhia.

Da Sicília até o interior de Milão? Da Sicília até o interior de Milão.

Agora estamos, na Sicília, dentro de Milão, e ele aos dez anos a chama.

“Berta”, diz-lhe, “não tema. Sou aquele menino da outra vez”.

“Meu Deus!”, Berta diz. “Era tão demorado e agora já acabou! Já acabou?”

“Sim, Já acabou!”

“Durava sete horas, e agora é apenas um minuto. Mas eu venci, ou não?”

“Venceu. Venceu.”

“Fui corajosa ou não?”

“Foi corajosa.”

“Não dirão que eu tive medo?”

“Não dirão isso.”

“Mas tive medo. Por que posso dizer isso a você? Posso lhe dizer.”

“É claro que pode me dizer.”

“Mas o que muda”, Berta diz, “o que muda tanto na minha vida?”.

“Eu quero mudá-la para você”, ele diz. “Quero que não lhe aconteça o que lhe aconteceu.”

Ele diz: “Quer que saiamos daqui?”.

Elio Vittorini, Homens e não. Trad. Maria Helena Arrigucci. Cosac & naify, São Paulo, 2007.

 

foto-de-vinil-do-gerry-mulliganPassados duas décadas em que já me habituara ao MP-3 voltei a ouvir as velhas bolachas pretas, sei que os críticos vem sustentando não haver diferenças entre o CD e o Vinil, mas há. Talvez não na qualidade, mas uma diferença de outra ordem. Já faz um tempo que venho acompanhando a substituição de tudo o que é físico pelo virtual, assim como também a onda vintage.  Nesse sentido, o toca-discos de vinil se tornou um objeto “executante”. Trata-se do processo de se por a ouvir algo digamos mais materializável, mesmo em se tratando da música. O barato está no processo de manusear e se por a ouvir algo mais tátil e físico, que nos dá a sensação intimista de proximidade.

O primeiro toca-discos que tive quando ainda criança era portátil, com duas caixinhas acopladas ao conjunto, nele ouvia os discos que me caiam as mãos, o primeiro deles foi um robertão com capa trocada. Nos anos oitenta além dos vinis, descobri a fita cassete. Perdi a conta de quanto tempo passei rebobinando-as com uma caneta bic, quando o parelho as “mastigava”. Nos noventa com o aparecimento do CD me vi curado de uma renite alérgica ao mesmo tempo em que presenciei as pessoas substituírem suas agulhas de porcelana ou diamante pelo leitor a laser e mais tarde a rápida adaptação de nossos aparelhos com entrada para USB.

Parece incrível, mas estou fascinado feito uma criança diante de um “novo brinquedo”. Num sentido hegeliano, ocorreu um movimento em espiral, porque mesmo tendo retornado ao vinil não deixo de reconhecer uma certa atualização.

                                                                                                                                                             à Alessandra

outro dia sonhei contigo

não posso dizer que foi um sonho bom

era um sonho sobre desejo não realizado

quando acordei tive a sensação

de que havia reprimido algo

certa tentativa de virar a página

apagar as coisas deixar para lá

sem de fato ter conseguido

como andar em círculos sem o saber

feriados

                                                                                                                                                        à George

e esses dias nublados com água fazendo espelhos

nos cafés vazios com guardanapos

preenchidos com tinta azul ou vermelha

e nossa eloquência a discorrer sobre

um tempo um lugar

e de como seria se fossemos outros

Leonard Cohen (1934-2016)

leonard_58455Quando o Leonard Cohen morre, você deveria telefonar no meio da madrugada pros amigos que não vê há tempos e dizer lembra quando a gente bebia e ouvia esse tiozinho e dizia ‘o cara parece um padre mas é rock’n’roll pra caralho’, que era o teu jeito de falar das coisas que você amava sem entender. Educado, curitibano e adulto, você não telefona. Dia seguinte, você anota em teu diário “par délicatesse j’ai perdu ma vie” e “é bonito que em espanhol a palavra remorso seja remordimiento, como um cão a latir e morder para sempre um rabo inexistente dentro de uma casa vazia”. O que não te faz menos imbecil, apenas mostra que você perdeu amigos, leu poesia e acumulou dicionários. Um cachorro late. Você olha no pátio, não há nada. Mas o cão, você sabe, continuará latindo noite e dia dentro da tua casa vazia.

Marcelo Bourscheid

seu nome com “n” de navio

fiquei num corredor no intervalo esperando ela aparecer com sua cor preferida. chamei seu nome perguntou-me o que fazia ali meio desconcertada. respondi que estava ali para vê-la. respondeu um não quase sem pensar. não acreditou que estava ali mas estava. talvez fosse melhor não nos falarmos mais nem mantermos contato disse. queria lhe dizer e não disse que podia fazer aquilo como já fizera outras vezes mesmo sem ela saber. dada minha insistência me passou seu e-mail com “n” de navio. depois deixei-a ir com tantas coisas a dizer e que não conseguiria.

É proibido afixar cartazes

A técnica do crítico em treze teses

 

 I. O crítico é um estrategista no combate literário.

II. Quem não souber tomar partido, que fique calado.

III. O crítico não tem nada a ver com o exegeta de épocas artísticas passadas.

IV. A crítica deve falar na linguagem dos artistas de variedades, porque os conceitos do cénacle são palavras de ordem. E é apenas nas palavras de ordem que ressoa o grito de guerra.

V. Será sempre preciso sacrificar a “objetividade” ao espírito partidário, se a causa pela qual se trava o combate merecê-lo.

VI. A crítica é uma questão de moral. Se Goethe ignorou Hölderlin e kleist, Beethoven e Jean Paul, isso tem menos a ver com o seu sentido artístico do que com a sua moral.

VII. Para o crítico a instância superior são seus colegas, e não o público. E muito menos a posteridade.

VIII. A posteridade ou esquece ou enaltece. Só o crítico julga tendo o autor à sua frente.

IX. Polêmica é destruir um livro com base em poucas das suas frases. Quanto menos foi estudado, melhor. só quem é capaz de destruir é capaz de criticar.

X. A autêntica polêmica ocupa-se de um livro de forma tão dedicada quanto um canibal cozinha um bebê.

XI. O crítico não conhece o entusiasmo pela arte. Nas suas mãos, a obra de arte é a arama desembainhada nas batalhas do espírito.

XII. O essencial da arte do crítico: cunhar chavões sem trair as ideias. Os chavões de uma crítica medíocre vendem os pensamentos à moda, e ao desbarato.

XIII. O público nunca pode ter razão, e apesar disso deve sentir sempre que é representado pelo crítico.

Walter Benjamin, Rua de mão única: Infância Berlinense 1900. Trad. João Barrento. BH, Ed. Autêntica, 2013.