– E para onde vamos? Os livros nos ajudariam?

– Só se nos fosse dada a terceira coisa necessária. A primeira, como eu disse, é qualidade da informação. A segunda, o lazer para digeri-la. E a terceira, o direito de realizar ações com base no que aprendemos da interação entre as duas primeiras. E tenho dúvidas de que um velhote e um bombeiro amargurado passam fazer muita coisa a essa altura do campeonato.

Ray Bradbury, Fahrenheit 451. Trad, Cid Knipel.1. ed. – São Paulo. Midiafashion, 2016.

Hume

É evidente que todos os raciocínios acerca das questões de fato estão fundados na relação de causa e efeito, e que não podemos jamais inferir a existência de um objeto por meio de outro, a menos que estejam unidos entre si, tanto mediata como imediatamente. Com o fim, portanto, de entender esses raciocínios, devemos ter uma perfeita familiaridade com a ideia de causa e, para tê-la, devemos olhar ao nosso redor para buscar algo que possa ser a causa de outra coisa.

Eis uma bola de bilhar parada sobre a mesa, e outra bola movendo-se rapidamente em sua direção. Quando elas se chocam, a bola que estava anteriormente parada adquire movimento. Este é um exemplo tão perfeito da relação de causa e feito quanto qualquer outro que conhecemos, quer pela sensação, quer pela reflexão. Passemos ao seu exame. É evidente que as duas bolas se tocarem antes que o movimento tivesse sido comunicado, e que não houve nenhum intervalo entre o choque e o movimento. A contiguidade no tempo e no espaço consiste, portanto, numa circunstância requerida em todas as operações das causas se revelou anterior ao que resultou em seu efeito. A prioridade no tempo constitui outra circunstância requerida em toda causa. Mas isso não é tudo. Experimentemos com quaisquer outras bolas do0m mesmo tipo em situações semelhantes e sempre notaremos que o impulso de uma produz o movimento na outra.

Eis, por conseguinte, uma terceira circunstância: a conjunção constante entre a causa e o efeito. Todo objeto parecido com a causa produz sempre algum objeto parecido com o efeito. Além das circunstâncias de contiguidade, prioridade e conjunção constante, nada mais podemos descobrir nessa causa. A primeira bola em movimento toca na segunda, imediatamente a segunda movimenta-se. Quando repetimos o experimento com bolas iguais em situações iguais, verificamos que pelo movimento e toque de uma bola o movimento sempre se transfere para a outra. Qualquer que seja o ângulo de que observamos esse tópico, e por mais que o examinemos, nada encontramos além disso.

Tal é o caso em que tanto a causa como o efeito se acham presentes aos sentidos. Vejamos qual é o fundamento de nossa inferência quando concluímos mediante um [objeto] que o outro existiu ou existirá. Suponhamos que vejo uma bola se movendo em linha reta na direção de outra, imediatamente concluo que elas se chocarão e que a segunda se movimentará. Esta é a inferência de causa e efeito, e desta natureza são todos os nossos raciocínios na conduta da vida, nela fundamenta-se toda nossa crença na história, e dela deriva toda a filosofia, excetuando-se apenas a geometria e a aritmética. Se pudermos explicar a inferência entre o choque de duas bolas, seremos capazes de atribuir a mesma operação do espírito para todos os casos.

Um homem semelhante a Adão, criado com tal vigor do entendimento, mas sem nenhuma experiência, não seria jamais capaz de inferir o movimento na segunda bola como ocasionado pelo movimento e impulso da primeira. A razão, não visualiza nenhuma coisa na causa que nos leva a inferir o efeito. Se tal inferência fosse possível, redundaria numa demonstração que se baseia unicamente na comparação de ideias. Mas nenhuma inferência da causa ao efeito corresponde a uma demonstração. Com respeito a isso há uma prova evidente. O espírito é dotado da propriedade de conceber qualquer efeito resultar de qualquer causa e, consequentemente, de considerar qualquer evento como resultado de qualquer outro, pois qualquer coisa que concebemos é possível, ao menos no sentido metafísico. Mas em qualquer setor que ocorre uma demonstração seu contrário é impossível e implica uma contradição. Portanto, não há demonstração em qualquer conjunto de causa e feito. Este princípio é geralmente aceito pelos filósofos.

Por conseguinte, teria sido necessário a Adão, se não estivesse inspirado, quer tivesse antes experiência do efeito que resulta do impulso daquelas duas bolas. Devia ter visto vários casos em que uma bola bateu contra a outra e a segunda sempre adquiriu movimento. Se tivesse visto suficientemente número de casos desse tipo, todas as vezes que observasse uma bola movendo na direção de outra, concluiria sempre e sem hesitação que a segunda se movimentaria. Seu entendimento anteciparia sua visão e formaria uma conclusão adequada a sua experiência.

Logo, todos os raciocínios de causa e efeito fundamentam-se na experiência e todos os raciocínios experimentais baseiam-se na suposição de que o curso da natureza continuará uniformemente o mesmo. De onde concluímos que as mesmas causas, em situações iguais, sempre produzirão os mesmos efeitos.

(David Hume. Sumário do Tratado da natureza humana. SP: Cia Editora Nacional, 1975.)

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O princípio da contradição complementar absolve algumas imagens, mas não todas. O mesmo, talvez, pode-se dizer de outros sistemas lógicos. Pois bem, o poema não apenas proclama a coexistência dinâmica e necessária dos opostos, mas sua identidade final. E essa reconciliação, que não implica redução nem transmutação da singularidade de cada termo, é um muro que até agora o pensamento ocidental se recusou a pular ou perfurar. Desde Parmênides, o nosso mundo é o mundo da distinção nítida e taxativa entre o que é e o que não é. O ser não é o não-ser. Esse primeiro desarraigamento – pois significou arrancar os ser do caos primitivo – constitui o fundamento de nosso pensar. Sobre essa concepção se construiu o edifício das “ideias claras e distintas” que, se por um lado ensejou a história do Ocidente, por outro lado condenou a uma espécie de ilegalidade toda tentativa de captar o ser por vias que não sejam as desses princípios. Mística e poesia viveram assim uma vida subsidiária, clandestina e diminuída. O dilaceramento foi indizível e constante. As consequências desse exílio da poesia ficam a cada dia mais evidentes e apavorantes: o homem é um desterrado do fluir cósmico e de si mesmo. Pois ninguém mais ignora que a metafísica ocidental termina num solipsismo. Para rompê-lo, Hegel volta a Heráclito. Sua tentativa não os devolveu a saúde. O castelo de cristal de rocha da dialética se revela afinal um labirinto de espelhos. Husserl examina todos os problemas outra veze proclama a necessidade de “voltar aos fatos”. Mas o idealismo de Husserl também parece desembocar num solipsismo. Heidegger regressa aos pré-socráticos para fazer a mesma pergunta que Parmênides fez e encontrar uma resposta que não imobilize  ser. Ainda não conhecemos a última palavra de Heidegger, mas sabemos que sua tentaiva de encontrar o ser na existência esbarrou em um muro. Agora, como mostram alguns dos seus últimos escritos, ele se volta para a poesia. Seja qual for o desenlace da sua aventura, a verdade é que desse ângulo, a história do Ocidente pode ser vista como a história de um engano, um extravio, no duplo sentido da palavra: é que nos afastamos de nos mesmos ao perder-nos no mundo. Precisamos começar de novo.

Octávio Paz. O arco e a lira. Trad. Ari Roitmann e Paulina  Wacht. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

Diante de tal esvaziamento, não pude evitar a lembrança da manhã de domingo, uns bons anos antes, em que tinha sido aberto ao público, com evidente precipitação, o então recém-construído museu de arte contemporânea de Barcelona, o Macba; abriram aos cidadãos, mas sem quadros, sem pinturas, sem nenhuma escultura, sem nada dentro. Os barceloneses passeavam pelo museu admirando as paredes brancas, a solidez da construção e outros detalhes arquitetônicos, orgulhosos de ter financiado aquilo com os seus impostos e dizendo que as obras de arte podiam esperar.

Ia pensando em tudo isso no Fridericianum, ia pensando naquela época feliz em Barcelona, quando Boston, vendo que eu estava desconcertado com a corrente de ar que circulava por aqueles lugares vazios e que tinha levantado a gola do casaco, me conduziu até uma discreta e pequena placa que havia em um ângulo formado por duas paredes brancas e deslocadas.

Pela placa fiquei sabendo, chocado, que a corrente de ar era artificial e assinada por Ryan Gander. Genial, pensei em seguida. Alguém assinava uma corrente de ar! Maravilhoso. Porém, não resisti e pensei nos detratores da arte contemporânea: com certeza aquela placa viraria motivo de piada entre eles.

Enrique Vila-MatasNão há lugar para lógica em Kessel. trad. Antônio Xerxenesky. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

Peter Esterhazy

Este mundo que afirma possuir honra, embora seja bem evidente que não possua honra, ou, mais exatamente, nunca existiu nada parecido com honra nele, não é apenas assustador, mas é aterrorizante, é também risível, e vivemos aqui, em um mundo muito mais que assustador, aterrorizante e risível, com isso cada um deve se conformar, e quantas centenas de milhares de milhões de pessoas se conformaram, você deve pensar nisso, quantos, mas quantos, se conformaram, para começar, aqui, neste país assustador, aterrorizante e risível, nesta pátria ridícula e assustadora, características desse país, desta pátria, daqui, para que possamos existir, para seguirmos adiante por mais um dia, nunca podemos dizer a verdade, para ninguém e sobre nada, porque neste país só a mentira funciona, a mentira, com a distorção e o mascaramento oferecidos à multidão traída e patrulhada. Neste país, a mentira é tudo, e a consequência da verdade só pode ser a denúncia, a condenação e o desfiguramento. Por isso, ele, Cáth, não pode silenciar que nesse país o povo todo se refugiou na mentira. Quem diz a verdade, ele deve ser ridicularizado, ou punido e ridicularizado. Quando não se pode punir quem diz a verdade, ele deve ser ridicularizado, é preciso torná-lo punível, neste país, tornam ridículo ou passível de punição quem diz a verdade. Portanto, pouquíssimos desejam se expor à possibilidade de serem ridicularizados ou punidos —

conversa na esquina

Nossa conversa ocorreu ali naquela esquina sempre tão movimentada. Achamos uma grande coincidência que estivéssemos ouvindo o mesmo compositor o Gonzaguinha, foi aí que arrematei:
“pois é, e perceber que apesar de alguns pouco avanços o Brasil é mesmo lugar injusto e desigual, terrível.”
A que ele respondeu:
“como isso tudo está acontecendo, né? tão fácil, tão de repente, parece inacreditável
 um amigo francês não entendia e nem a gente, né?”
“não quero me ater a questão técnica, mas ao fato de as velhas oligarquias e seus afiliados nos ururparem o governo” disse pesaroso.
“o pior é que o PT é o que temos de melhor”
“o PT é ainda um partido heterogêneo”
“e dos partidos de esquerda é o único que consegue mudar alguma coisa (pro bem e pra pior)”
“o restante pode criticar do alto da sua pureza mas não consegue praticar o que prega
 infelizmente estamos nessa sinuca de bico”
“concordo”
“um passarinho na mão (todo cagado) ou 5 voando, quem prefere assistir não costuma gostar nem de política nem de povo”
“quando começamos a ir para ruas vislumbrava uma queda de braço, já sabendo que perderíamos”
“tá feio”
“Um Judiciário seletivo, uma mídia que nem consegue fingir imparcialidade, uma massa desinformada e brutalizada e uma classe média burricisssimamente, está prota a receita”
“acho que o PT se reergue, mas vamos perder direitos”
“é o que eu também penso”
“e o pior; não precisava ter sido assim”
“a história vai dar mais uma volta”
“o PT podia perder radicalizando ao menos. Mas não, apostou na conciliação até o último minuto, quando já não tinha mais vantagem nem de governabilidade!”
“isso ficou visível”
“enfim, todos vamos pagar pelos erros do PT, mesmo sendo a única esquerda forte que temos”
“acho isso terrível”
“até a cúpula do PT foi manipulada, isso ficou visível quando os ministros do STF “aconselharam” a Dilma a não falar em golpe na ONU. Uma tática, faça uma ameaça mostrando que a consciliação ainda será possível que o governo recua. Depois atacamos com tudo.”
“o problema é que acredito que em política não há inocência, há estupidez e maldade”
“nós temos uma ideia muito equivocada da política, o objetivo da política é bom, é uma força imensa de transformação, mas o diabo está nos detalhes”
“isso tudo nos deu uma grande sensação de impotência, com se estivessémos cercados por todos os lados em pleno campo aberto”
“sim”
“acho que a política não é boa bem má, ela é um formato institucional que pode ser bem usado ou não, mas concordo que me senti num campo aberto em situação de guerra”
“ás vezes sinto vontade de me refugiar em uma vidinha privada, se é que não estou fazendo isso, ou já não faço. Mas não consigo parar de pensar no que realmente nos importa, a todos”
“nossa, também me sinto assim.”

Cruzei com a menina no espaço de embarque do terminal rodoviário numa cidade mais ou menos próxima da fronteira, tinha um rosto pequeno e vestia uma blusinha de cor vermelha e uma calça de cor escura. Logo notei que era uma andarilha, passou por mim e se dirigiu ao lugar onde antes me encontrava. Na plataforma onde nosso carro acabara de chegar vi um senhor de uns cinquenta anos ou talvez de até menos idade mas com os traços visivelmente castigados pelo sol, magro e de cabelos longos e prateados. Ao seu lado os pertences de ambos, algumas mochilas, e aquilo que os hippies chamam de pano contendo seus trabalhos artesanais, que hoje em dia se tornaram comuns até em feirinhas culturais turista. Fiquei um pouco próximo a ele aguardando o embarque dos demais passageiros. Logo, ela  retornou com um grande copo de café em copo descartável e em seguida um dos passageiros se interessou por uma das chamadas pulseirinha que ela carregava  envoltas num pequeno pedaço de tubo de pvc de dimensões pequenas.

Embarcamos e eles ocuparam as duas poltronas bem a minha frente, o passageiro que havia comprado a pulseira retornou e escolheu mais uma, a que o homem prontamente atendeu. Nesse momento percebi seu sotaque castelhano, e então disse-lhe que também queria uma pulseirinha, ele pedia para que escolhesse, e apanhei qualquer uma. Após isso via a garota também com sotaque comentar algo do tipo, “que homem bom”. Fiquei pensando por um tempo neles, de onde viriam para onde pretendiam ir. Numa das paradas que fizemos para o almoço, fiquei em pé na plataforma e a garota aproximou-se de mim, desta vez pude notar melhor sua silhueta.

Bartleby Agamben

(…) Os teólogos medievais distinguiam em Deus uma potentia absoluta, segundo a qual ele pode fazer qualquer coisa (até mesmo, segundo alguns, o mal, até mesmo fazer com que o mundo jamais tenha existido, ou, ainda, restituir a uma moça a virgindade perdida), e uma potentia ordinata, segundo a qual ele pode fazer apenas o que deseja segundo a vontade. A vontade é o princípio em que consente em colocar ordem no caos indiferenciado da potência. Assim, se é verdade que Deus podia ter mentido, perjurado, encarnado em uma mulher ou em um animal em vez de no Filho, ele, todavia não quis fazer, nem o podia querer, e uma potencia sem vontade é de todo sem efeito, não pode jamais passar ao ato.

Bartleby recoloca em questão precisamente essa supremacia da vontade sobre a potência. Se Deus (ao menos de potentia ordinata) pode verdadeiramente apenas aquilo que quer, Bartleby pode apenas sem querer, pode somente de potentia absoluta. Mas a sua potencia não é, por isso, sem feito, não resta inatuada por um defeito de vontade: ao contrário, ela em toda parte excede a vontade (tanto a própria quanto a dos outros). Invertendo a anedota de Karl Valentin (“ter vontade, isso eu queria, mas não tive a sensação de podê-lo”), dele se poderia dizer que conseguiu poder (e não poder) sem, em absoluto, querê-lo. Daí a irredutibilidade do seu “preferiria não”. Não é que ele não queira copiar ou que queira não deixar o escritório – apenas preferiria não fazê-lo. A fórmula, tão meticulosamente repetida, destrói toda a possibilidade de construir uma relação entre poder e querer, entre potentia absoluta e potentia ordinata. Ela é a fórmula da potência.

Giorgio Agamben. Bartleby, ou da contingência. Trad. Vinícius Honesco. Ed. Autêntica. BH 2015.